Alinho as dificuldades, as contrariedades, as necessidades,
recomendações, travessões, contradições.
Direcções equidistantes do que chamamos uma vida.
Um clamor ergue-se. Perceciono as vertigens,
os pólos invertidos.
Investidos, vestidos com que me mascaro.
Punhais dentro das gavetas a aguardarem
o seu destino. Famintos.
Devolve-me as palavras.
Os meus pés não pisam o chão,
oblíqua.
Vítima, presa, carrasco.
Um balão de oxigénio num dia quente de Verão.
Uma onda, um portão, um caminho
sem passos. Uma linha sem orientação.
Chegou uma carta, era a minha escrita.
Do futuro, para ti.
O que dizia, não sei.
Talvez um poema do fim.
domingo, 21 de abril de 2024
Carta
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sexta-feira, 8 de dezembro de 2023
O sentido do Caminho
Reencontro-me no silêncio, ideias difusas,
confusas, emergentes
atropelam-se por entre o sibilar da (des)rotina.
Se virar o olho para dentro
há um caldeirão fumegante de saber e de incongruências,
tão vasto que quase consigo acreditar que os mundos se fundem
e se confundem. As respostas e as perguntas misturadas
num fluxo milenar de sentiência.
O esforço, meu e dos outros, dos que viajam
na sombra dos dias, neste espaço entre o sagrado
e o profano, entre a ciência e Deus
transfigurado numa escada, uma corda
pulsante por onde nos chegam vibrações
do Universo e da multitude do Espaço e do Tempo.
Caminhos que percorremos sós, onde antes estiveram outros
e depois outros estarão, em busca, sempre em busca
da sonoridade, das linhas e dos travessões.
Da febre da criatividade contida, até rebentar
numa exigência gritante, fundamental, como se todos
os Homens e os que vieram antes dos Homens e os que virão depois dos
Homens, gritassem numa só voz, um uníssono
de procura. A insatisfação permanente no peito,
a mensagem pulsante que escrevemos em todos os poemas,
todos os livros, todos os ensaios. Nas peças de teatro,
nos filmes, nos papéis em que nos convertemos
emocionados, em que sentimos o que não é nosso,
é do Outro.
O sentido é sempre para lá do que é a distância de nós
até alguém, uma enfermidade benigna de saber,
mesmo sem acreditar. De sentir que podemos, devemos,
caminhemos, correremos, voaremos,
até ao fim e para lá do fim, de volta ao princípio,
de novo, hoje, amanhã, até que o pulmão páre,
uma e só uma travessia. No deserto, pelos oceanos de Estrelas,
até ao embrião e ao momento que a luz se cega nos olhos.
Publicada por fairy_morgaine à(s) 23:03 0 comentários
terça-feira, 18 de julho de 2023
Sal Amargo
De ti soube que percorres as estradas
em busca da liberdade que perdeste ao nascer.
Deixas pedaços de sombra como quem deixa poemas.
As palavras trazem-te sentidos que não queres
recordar. No vento esqueces as mágoas
e o (des)amor, um horizonte que te ilude
dia após dia, após dia.-
Cartas esvoaçam, fugidias, tremem.
Por vezes, à noite, quase podes sentir
o cabelo, o seio, o monte de Vénus,
a língua. Recordações? Ou a tua imaginação
a trazer-te os lábios de todas as mulheres que amaste
e as que juraste amar.
Perdem-se, esquecidas, nuas.
Escreves as palavras e apagas,
como quem apaga de si próprio o sangue,
o gene, o sal amargo dos dias.
Publicada por fairy_morgaine à(s) 22:13 0 comentários
quinta-feira, 2 de março de 2023
O meu corpo é uma prisão
O meu corpo é uma prisão que se degenera
enquanto o tempo se eclipsa, o mundo
não se suspende quando a dor me
afoga, desinteressada.
Disassocio com os olhos vagos,
a estrada parece interminável,
médicos observam-me intrigados
com a infinidade de pequenos erros
que se atropelam para me envelhecer.
Percorro um corredor de gabinetes,
saio duma porta e entro noutra,
tomo um comprimido enquanto empurro
outra porta. A teia torna-se incrivelmente complexa
quando pequenos erros se juntam a outros erros,
emaranham a minha genética e tudo o que esteve
errado na minha vida. Cada grito que silenciei
entrelaça-se na probabilidade que a minha coluna
irá ceder antes de mim. Cada lágrima que me escorreu
pelo rosto, agregada ao sangue,
aos anticorpos que são anti. Anti o meu corpo.
Anti a minha genética. Um erro numa linha de produção,
um soluço da Humanidade, um engano
de Deus. Uma alma demasiado grande para
a fragilidade da pele.
Uma faca encostada à carótida enquanto respiro.
Publicada por fairy_morgaine à(s) 16:50 0 comentários
segunda-feira, 31 de outubro de 2022
Abraço
Acordo de noites mal dormidas
e tento esquecer o batimento
cardíaco que reverbera na ausência.
Um eco fantasmagórico dum futuro que nunca foi.
Uma impressão que apaguei dos lençóis.
Se pudesses, não me terias conhecido?
Se o Sol não brilhasse, se a Lua não fosse um astro.
Se tudo fosse linear e previsível.
Um poema perfeito, sem dor, sem mágoa,
sem sentimentos em explosão.
Se pudesses, não me quererias inverter
as cores? Curar os olhos febris?
Tolher-me as mãos com que aperto
a maçã de Adão na minha mão de Eva.
Se pudesses, nascerias noutro mundo,
outra pessoa, outro nome, outro Eu.
Outra, outra, outra?
Quem serias tu afinal, sem dor,
sem o teu sangue a escorrer das paredes
para cálices estilhaçados.
Quem, afinal?
Noutro mundo, talvez o teu coração
sinta o meu. E por segundos
batam em uníssono. Talvez
estejamos felizes e inteiros.
Nesse outro mundo, talvez existam crianças
nas nossas fotografias. A sorrirem,
suspensas no meu seio.
Talvez eu tenha as respostas
e não existam mais perguntas.
Talvez tenha aprendido a escrever
sem arrancar o coração
pelas costelas.
Eu só sou eu quando as palavras
estilhaçam a máscara, o sorriso,
rebentam as cicatrizes.
Se pudesses.
Se pudéssemos.
Se as noites nunca acabassem, se os silêncios
fossem gritos. E o mundo não fosse tão
estupidamente complicado.
Se pudesse, saía de dentro de mim
e deixava-me a secar,
até nada mais restar
de quem sou. E talvez aí renascesse
para além dos meus sonhos e desejos,
das minhas imperfeições,
dos meus ossos e da degeneração
lenta mas imparável do meu corpo.
Se pudesse, despia o meu corpo
só para me abraçar.
Publicada por fairy_morgaine à(s) 22:57 0 comentários
sábado, 26 de junho de 2021
(re)Encontro
Ele pousou o copo na mesa, perplexo. Não a imaginou ali. Imaginou-a em vários momentos, mas nunca fortuitamente. Ela sentou-se sem pedir licença. Invasiva. Parecia desenquadrada naquele ambiente e no entanto, continuava a segurar o olhar dele com o dela. Ele quis falar, mas teve receio de quebrar o feitiço que a trazia ali. "És o meu escritor favorito". Ele fitou-a e pensou o que responder a uma frase que lhe soava como um ataque. "Não tens escrito". "Não, não tenho". "Porquê?". Incisiva. "A escrita deixou de me fazer sentido". Ela inclinou levemente o rosto e ele viu dezenas de expressões a transmutar-lhe os traços. "Não acredito que tenhas abandonado as palavras". "Podemos dizer que as palavras é que me abandonaram". Os lábios dela formavam uma linha teimosa. Ele perguntou-se como ela acreditava que podia surgir duma névoa e perscrutar-lhe a alma, como se fosse um direito adquirido. "As palavras já não me fazem sentido" Os olhos dela perderam-se numa linha distante e ele sabia que ela estava a debater-se se o abria para procurar as palavras que ansiava. "Não tenho nada que te possa dar". "Recuso-me a acreditar que te tornaste mudo, que não tens textos a rasgaram-te os limites, recuso-me a acreditar!" Onde estiveste? - queria agarrá-la e sorver dela as palavras. Queria enterrar os dedos nos braços dela e trespassá-la com pontos de exclamação. Sentia a frase sufocá-lo, és feliz? És feliz? "Perdoa". Ela olhou-o, os lábios entreabriram-se para retorquir uma nova exigência mas suspenderam-se. Ele queria alcançar a mão dela e provar a si mesmo que não estava a delirar. Como se o tivesse pressentido, ela colocou as mãos perdidas no colo. Ficaram em silêncio e ele suprimiu a ânsia de a percorrer a pele. Ela parecia-lhe tão igual e simultaneamente tão diferente. Sabia-a, como duas linhas que correm paralelas até convergirem numa explosão e de novo se espelharem numa eternidade. "Pareces diferente" murmurou ela. "Pareço?" Ela sorriu. E ele sentiu. O frémito das palavras a insurgirem-se contra o peito. Queria dizer-lhe que se ela ficasse aqui, se ficasse tão perto que o ouvisse sussurrar, as palavras lhe renasceriam nos dedos. Queria fazer-lhe promessas que ambos sabiam que ele não tinha como cumprir. Queria despi-la e possuí-la, faminto de todas as noites em que dormiu sozinho. "Achas que algum dia voltarás a escrever?" "Duvido." "E o que faço com as saudades das tuas palavras?" "Arrumas numa gaveta onde as esqueças, dobradas" - apeteceu-lhe sorrir quando viu a postura corporal dela a mudar, como que a antever a desilusão. "Sabes que não funciona assim." "Sei." A pergunta queimava-lhe a língua e estremecia-lhe o coração - És feliz? Mas a boca permaneceu muda. Os olhos presos nos dela, inevitáveis. "E se eu tivesse ficado, terias escrito?" Sim, teria. Teria escrito e teria fingido que todos os poemas não eram de alguma forma odes ao veneno que era ela a correr-lhe nas veias. Queria prendê-la num abraço e extrair as palavras como uma corrente que amarra o coração. Teria escrito textos que apagaria quando a madrugada terminasse e com ela o feitiço do corpo nu dela nos lençóis. Teria imaginado enredos cujo final seria sempre uma ausência. Ele não sabia ficar. Mas isso não impedia a fome que o impelia a agarrar o coração dela com as mãos e apertá-lo até o quebrar em pedaços que nunca mais seriam encaixados da mesma forma. "Não queres mesmo que responda a isso". "É melhor não". Viu-a levantar-se, o rosto escondido em brumas. Queria pedir-lhe que ficasse, que se deitasse nua nos lençóis até que as palavras lhe brotassem do peito. Queria dizer-lhe que todos os poemas eram um mesmo poema. Queria aprender a ficar. Quando a noite findou perguntou-se se ela tinha estado mesmo sentada ali ou se a tinha sonhado.
Publicada por fairy_morgaine à(s) 23:04 0 comentários
terça-feira, 22 de agosto de 2017
Simplicidade
Procuro palavras simples que te expliquem a complexidade tremenda das cores a explodir no meu coração. Parecem efémeras, envergonhadas pela sinceridade nua do olhar. Poderia criar todas as metáforas, tantas figuras que se apropriassem do estilo mas não da luz que ilumina o meu sorriso enternecido a sorrir-te. (Pres)sinto todos os poemas, sussurros que me comovem o coração. E são ainda assim tão pouco, tão aquém das nuances de nós. Preenches os meus silêncios. Esqueço as palavras, preencho-me simplesmente de ti.
Publicada por fairy_morgaine à(s) 01:24 0 comentários
segunda-feira, 14 de novembro de 2016
Manto de saudade
Moras no meu silêncio. Sereno. Pergunto-me se nessa existência eterna o peso da clareza desapareceu do teu olhar. Regressas em cada música, em cada acorde triste que invade o coração. Levaste contigo as minhas letras. Nada mais sei escrever, agora que não estás aqui. Teço palavras em silêncio, e em silêncio sinto-te chegar. Em memórias esbatidas, em que te ouço chamar-me. O maior medo de quem ama é esquecer a voz de quem partiu. Teço palavras por entre o silêncio, para que possas estar mais um momento aqui. E mesmo quando lágrimas de sal rasgam o coração por entre as palavras e os pontos finais, permito que a sensação de ti invada o poema. Para que os vazios se apaguem perante a clareza com que te recordo. Para recordar que só desaparecerás de mim quando surpirar o último suspiro. O maior desejo de quem ama é a Imortalidade. Não a nossa, essa não. A dos que amamos, para que possam sorrir-nos todas as manhãs e todas as noites, em todos os dias da nossa vida. E a Imortalidade que conhecemos é apenas o Amor. Que nos faz perdurar para sempre no coração dos que amamos. Todas as manhã e todas as noites, em todos os dias da nossa vida.
Publicada por fairy_morgaine à(s) 00:38 1 comentários
segunda-feira, 15 de agosto de 2016
Eco da eternidade
Sinto as palavras a sussurrarem pedaços de mim, tão distantes, frias, cruas. Dos braços da árvore pendem as fotografias que nunca tirei, pedaços de nada e de irrealidade. Estórias, memórias, sonhos que se perdem, esquecidos por entre as melodias do vento. E finalmente, o silêncio. Cúmplice de tantas noites, tantos poemas, tantos gritos que rasgam as cores opacas dos caminhos por percorrer. Existe verdade na solidão. Existe poder na noite que, imperturbável, te colhe as asas. A espaços, o Sol seduz-me, quente. Inflama o coração de labaredas que lambem os vazios. Destemidas. Líquidas, ferozes. Sentimentos que invadem as veias, forçam as mãos a abrirem-se, honestas. Fecho os olhos para não os ferir de tanta luz. Engasgo-me com a força de reter a voz na garganta. Na árvore, sinto o pulsar das fotografias que se derretem numa paleta de cores e sentires. Um rio de laranjas e vermelhos e liláses que escorrem na pele, até aos dedos. Um rio de acontecimentos e escolhas que pintam a minha pele de futuros inacabados. As cores mascaram a veracidade do meu coração tolhido, gasto, retalhado. O Sol desaparece no horizonte. Fundo-me com a árvore, por entre as sombras. De mim, resta um rio de cores, como lágrimas que alimenta a terra serena. Um grito que ecoa pela eternidade, de reconhecimento do tudo que é ser-se humano.
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quarta-feira, 1 de junho de 2016
Quando eu era criança
Quando eu era criança, tive mães que não me carregaram no ventre. Mães que me disseram: "tens o mundo preso nos olhos e nas tuas mãos pousarão aves perdidas nos seus ciclos migratórios". Quando eu era criança, o futuro era um palco de sonhos. Os dias eram longos e as noites obscuras escondiam as horas em que esquecemos de amar. Quando eu era criança, o quarto era cheio de livros e as bonecas que me acenavam na sua solidão contavam histórias de ninar. Quando eu era criança, as minhas lêndeas eram porquês a florir no meu cérebro. Adivinhavam-se já as fraturas que me afligiram a cervical. Eram tantas as questões. Quando eu era criança, era certa e era errada, era eu e muito mais. Era um casulo e já uma borboleta formada.
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segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016
Reflexos
Na Vida, existem tantos caminhos, tantas escolhas, tantos reflexos de nós. E sempre que escolhemos, a roleta rola e o mundo gira, os trilhos a mudarem, a luzirem até cegares. No fim que é um (re)começo, sei que te sentarás a meu lado cansado da viagem e vais sorrir-me. Dirás que vivemos e fomos mais, fomos grandes. Os joelhos tremeram em noites escuras, os pés arrastaram-se em dias longos. Foi difícil. A Vida é dífícil. Por vezes, desejas apenas que páre. Encolhes o corpo frágil, escondes as asas nas costas cansadas e queres apenas que te esqueçam. Te deixem por momentos respirar fundo. Dizes, que o Sol é demasiado alto e o Céu é demasiado longe, que na tua voz nada mais sobra que um fio de nada. Mas a Vida, não pára. E o casulo onde escondes as linhas que constróis com palavras não pode albergar o teu corpo indefinidamente. As mãos tiveram espasmos, a ciclos, de ti partiram pessoas que amaste. Para outros quadros, outras fotografias. Sorris-me, e dizes que as escolhas te pesaram nos anos que vivemos, os anos em que o cenário mudou tantas vezes. Crescemos. Oh, se crescemos. Tão sonhadores, quanto mudos estão os nossos olhos. Sou o teu espelho. As tuas raízes roem-me os pés, enquanto os teus braços procuram o calor da fonte. Iremos partir, para outra Viagem, mas por enquanto o teu semblante é o meu semblante, e os teus olhos, os meus. Os teus lábios sorriem o meu sorriso, e nas minhas mãos nascem os teus poemas. Um cordão de todas as cores, liga o teu umbigo ao meu e os teus dedos confundem-se com os meus. Lembras? Lembras, quando nos vimos pela primeira vez, o tempo não era ainda tempo? Murmuras o meu nome, e o meu nome é o teu. Esqueço-me de mim e de todas as palavras. O Mundo gira. Difícil não é perdermo-nos no abismo, difícil é encontrarmo-nos e não sabermos que somos nós.
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quarta-feira, 9 de dezembro de 2015
Donzela
A poesia seduz-me como uma mulher embriagada, o hálito doce a roçar a minha pele sensível. Sussurra-me mistérios e palavras que temo, como amuletos que guardam o teu coração. Vejo-a dançar, os cabelos longos a lamberem-lhe a cintura. Permaneço, muda. Trago uma tempestade no peito, que encerro com dedos leves. A poesia rodopia e ri, ri e as suas gargalhadas são manhãs de Primavera. Raios de calor com que agrilhoa a minha voz que morre nas paredes. O quarto rodopia, sinto uma náusea atirar-me num êxtase poético. A poesia segura-me o rosto nas mãos ossudas que se transformam em mãos de donzela. Abraço-a, rendida num quebranto que me rendilha as vontades. Rezo em silêncio para que este momento não termine, infinita rendição que torna as cores vibrantes e faz asas nascerem nos espaços entre as costelas. Dos olhos nascem pombas como lágrimas, nascem arco-íris como fotografias. Sei dela, que tem nome. Entreabro os lábios para a chamar, para lhe dizer de mim todos os segredos, todos os sonhos, todas as incógnitas, todas as esquinas, todos as portas. Entreabro os lábios e o seu perfume acre queima-me a língua. Num suspiro murmuro o teu nome.
Publicada por fairy_morgaine à(s) 13:16 0 comentários
quarta-feira, 29 de julho de 2015
(re)Encontro
A tua partida reveste-se de um absurdo tão profundo, Que as cores invertem-se até que o ar reencontra o caminho Para os alvéolos. Onde a tua essência ressoa, as minhas mãos frágeis não te podem alcançar. Poderia escrever-te todas as cartas, todas as palavras, todos os silêncios. Nunca conseguiria descrever o momento da realização da tua ausência E a forma como este se repete num ritual diário, o coração teimoso a crer que Estás ainda à distância de um passo. É ainda a força do teu Amor que me mantém inteira, honesta, digna. Para que quando me sonhes, comA tua partida reveste-se de um absurdo tão profundo, Que as cores invertem-se até que o ar reencontra o caminho Para os alvéolos. Onde a tua essência ressoa, as minhas mãos frágeis não te podem alcançar. Poderia escrever-te todas as cartas, todas as palavras, todos os silêncios. Nunca conseguiria descrever o momento da realização da tua ausência E a forma como este se repete num ritual diário, o coração teimoso a crer que Estás ainda à distância de um passo. É ainda a força do teu Amor que me mantém inteira, honesta, digna. Para que quando me sonhes, como te sonho, nessa outra Dimensão que os meus olhos apenas Fantasiam, me saibas tua neta. Pedaço de ti, continuidade, linha recta do teu saber. (Re)encontro-te amanhã. Neste tempo sem tempo De realização do quão absurda é a existência pautada de ausências De pedaços da carne.o te sonho, nessa outra Dimensão que os meus olhos apenas Fantasiam, me saibas tua neta. Pedaço de ti, continuidade, linha recta do teu saber. (Re)encontro-te amanhã. Neste tempo sem tempo De realização do quão absurda é a existência pautada de ausências De pedaços da carne.
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domingo, 26 de abril de 2015
Eco mudo
III Num eco mudo, o teu nome espelha a aparição da Dama Branca, O abraço seco com que largaste o último suspiro. Soube que esse era o primeiro dia do resto da minha vida. Em que as cores invertidas trocaram a tonalidade pelo opaco Das raízes que se esvanecem e jazem a meus pés. Fechou-se a porta da casa e o pó adulterou os teus passos silenciosos Nas manhãs em que o sonho embalava as nossas pálpebras. Eras a nossa certeza, o conforto sereno de te sabermos na retaguarda Dos nossos voos tímidos. Restam de ti as fotografias e as memórias que guardamos junto ao coração, Rentes à pele. Restam de ti os nossos sorrisos, os braços da árvore que eras tu.
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quinta-feira, 23 de abril de 2015
Serpente Plumada
O coração despe a pele como uma serpente plumada. A saudade é como uma tinta que sufoca a respiração Do pulmão. Um reflexo de branco como branco era o teu sorriso. E a realização da tua ausência, a espaços, como a realização De um sonho lúcido, é uma mão gelada que acaricia a garganta. Por momentos, o corpo vacila, a mente recusa acreditar No que sussurra a razão. Diz-me baixinho que tu não estás mais aqui. Que para onde partiste não existe linha de conexão. O tempo pára, nesses momentos. Porque não existe sentido na Morte. O tempo não ameniza a dor da ausência fria Da minh’alma estilhaçada, um ponto de referência Que se perde nas memórias de outros dias. II Não podia imaginar que te ia recordar nos mais pequenos Momentos. Que os dias trariam de ti pedaços de sabedoria. Frases com que esculpiste a minha sombra. Recordar-te é uma rotina que finge apagar o rasto de dor Que a tua partida deixou. O ser humano crê conseguir preparar-se para deixar os que ama Desaparecerem por entre as brumas da memória. O ser humano crê. E falha redondamente. Nada nos prepara para um laço que perdura, Um Amor que nunca acaba e uma estrada que já não conduz A parte alguma.
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sábado, 21 de fevereiro de 2015
Elegia
Os olhos cegam-te para as cores do mundo, O espectro de cinza confunde-te os sentidos. Não recordas o primeiro momento em que as íris queimaram Os indicadores da cor vermelha-sangue. Apenas reconheces dos dias o som apagado do bafio Em que se tornou o teu quarto e as paredes que te suportam a coluna vertebral. Com os anos mudas a pele uma e outra vez, como uma melodia Que os ouvidos reconhecem de cor. Coleccionas perguntas para as quais sabes as respostas. O coração bate, rítmico, embalado na ausência profunda de cor. Seguro. Seguro. Seguro. Seguro. Seguro. Do mar esqueces o sal. A água fria que te arrepia as certezas. Por vezes, o corpo anseia. Aninhas no teu peito o Vazio que te devora devagarinho As entranhas serenas. Seguro, seguro, seguro, seguro, seguro…
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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015
Filhos de um deus menor
A pele sua a doença nos lençóis amargos Em que deitas o corpo. Nas mãos traças o destino cansado de si mesmo. Enrugam-se os olhos à espera do amanhã seco. O Sol curva-se sobre si mesmo, na curva nada te espera. Da morte restou o negro vazio da ausência. Queres os dias e as noites, o sonho e a realidade, o néctar A morder-te os lábios mudos. A vida piscou-te os olhos tantas vezes, ofuscou-te os sentidos Com promessas inúteis de dias longos e férteis. Pertences a um tempo negado, uma multidão cega de si mesma. Há medo escondido nas vértebras do teu sentir. Um rio poderoso de coisa nenhuma. Sentiste tanto e amaste tanto e foste tanto E nada resta de ti. Abres a boca e engoles o silêncio. Crescem-lhe asas na escuridão da tua mente e na eloquência dos teus actos. Pendem-te dos seios maduros, as chaves que te acorrentam os pulsos frágeis Aos pedaços de sonhos que mamam, famintos, fetos inacabados Filhos de um deus menor. Dos cantos da boca, o silêncio lambe-te as sementes de esperança. Abandonas-te à doença que te corrói a fragilidade do corpo suado.
Publicada por fairy_morgaine à(s) 09:21 0 comentários
segunda-feira, 29 de dezembro de 2014
Tu.
A desumanização ocorre enquanto o silêncio se atravessa Na minha garganta como uma adaga. Cresce um feto de ausência no meu ventre. Um grito que afaga as palavras que não te trazem De volta. Como um rasgar de serenidades. Quem és tu, afinal? Quem o rosto impassível que me observa Enquanto despojos de mim surgem nas águas improváveis. Tu não estás mais aqui. A vida corre como uma gozação do Universo, Uma comédia negra de Deus. E o dia morre na noite, nada mais sobra. Tu não estás mais aqui. Contigo a poesia fria nascida de affair clandestino entre as estrelas e o mundo, Finge seduzir o meu corpo frígido. As letras caem das minhas feridas abertas. Não tenho como purgar o coração esquecido Nas brumas de outrora. E tu. Não. Estás. Mais. Aqui.
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sexta-feira, 12 de setembro de 2014
New dawn
A vida lança os dados, ouço os planetas a mudar a sua rota milenar. Momentos suspensos, em que a sorte colide com o azar e tudo pode acontecer. A criação nasce da terrível coincidência de uma noite que se debruça sobre o dia. Num instante de perfeição, um what if de sentidos e pombas que nos pousam nas mãos. Abrem-se os caminhos e poeira cega-nos os olhos, regemo-nos apenas pelo sentir. O coração implode-nos no peito em cada batida, irrompe pelas barreiras e o sangue rasga-nos. A batida primordial da terra sussurra-me que é o momento dos meus pés me levarem num trilho que não era o meu. - - Encosto as mãos tímidas junto ao corpo tão cheias de nada. Só um passo. Só mais um passo. Só um outro passo. Um pequeno, miserável, trémulo, um passo por mim, pela minha sanidade, um passo em direção ao futuro, um passo, é apenas... é apenas... é apenas. É um passo, é um imenso passo, é um enorme é um destemido, é um grito que envergonha até o mais bravo silêncio. O tempo não espera que ouses saber o que fazer das tuas mãos inquietas. O tempo não se compadece dos teus lábios curvos, num desespero mudo de insegurança. Por vezes, doce criança, a vida tira-te todas as redes de segurança e tudo o que te resta são as asas que um dia soubeste usar, coladas na tua coluna vertebral. Os teus pés começam a marcha, as asas abrem-se devagar e o desfecho reside na força com que fechares os olhos e aprenderes a fazer diferente. Toda a mudança nasce do momento em que o desconforto te oprime o coração contra as costelas e sabes, com a clareza estonteante da angústia que amanhã nada será o mesmo.
Publicada por fairy_morgaine à(s) 02:08 1 comentários
domingo, 31 de agosto de 2014
A alma a esquecer-se de si mesma
Cubro-me de silêncio. Como um casulo que alberga as minhas asas cansadas. Escondidas, junto à coluna vertebral que balança mas não verga. Numa teimosia imperfeita de ser eu. No fim, nada resta senão folhas soltas ao vento. Esquecidas por entre as azafámas do dia mudo. E das palavras, amor, já nada sei. Ofereci-tas todas. Nada mais resta a habitar-me os lábios secos. Prometi-me um mar de certezas. Um futuro certo e um presente enraizado. E o passado seriam apenas dias quentes de sorrisos e ternura. Lembras? Os meus sonhos e as minhas angústias, todas as palavras que te entreguei embrulhadas em lágrimas e em sorrisos. Dei-te sonhos e dias inteiros. Noites rasgadas de incerteza. Dei-te o meu coração despojado de malícia. Dei-te um nome e uma casa. Paredes nuas para cobrires de fotografias e mapas que te trouxessem até mim. Dei-te todas as palavras cheias de mim. Cubro-me, então, de silêncio. Porque as palavras, os dias e as noites, não te chegam. E em ti há sempre uma ânsia de coisa nenhuma. De um lugar que os teus pés não pisaram. De uns lábios cujo sabor a tua língua não saboreou. De uma concretização de momento que teima em não chegar. Cubro-me, finalmente, de silêncio. Porque ainda sinto o teu cheiro e já te adivinho a ausência. E a noite nada mais é que o sepulcro de um amor que não chegou a nascer dos teus olhos para as mãos. Ficou-te suspenso nas íris. Perpetuado de incompreensão e amargura. Cubro-me e parto em silêncio. No espaço árido que é o teu coração os teus olhos são cegos aos meus. E das palavras, amor, que tantas vezes foram pontos de referência, já nada sei. Tudo em mim morre em silêncio. A alma não tem como sobreviver ao esquecimento de si mesma.
Publicada por fairy_morgaine à(s) 02:38 1 comentários
