O coração despe a pele como uma serpente plumada. A saudade é como uma tinta que sufoca a respiração Do pulmão. Um reflexo de branco como branco era o teu sorriso. E a realização da tua ausência, a espaços, como a realização De um sonho lúcido, é uma mão gelada que acaricia a garganta. Por momentos, o corpo vacila, a mente recusa acreditar No que sussurra a razão. Diz-me baixinho que tu não estás mais aqui. Que para onde partiste não existe linha de conexão. O tempo pára, nesses momentos. Porque não existe sentido na Morte. O tempo não ameniza a dor da ausência fria Da minh’alma estilhaçada, um ponto de referência Que se perde nas memórias de outros dias. II Não podia imaginar que te ia recordar nos mais pequenos Momentos. Que os dias trariam de ti pedaços de sabedoria. Frases com que esculpiste a minha sombra. Recordar-te é uma rotina que finge apagar o rasto de dor Que a tua partida deixou. O ser humano crê conseguir preparar-se para deixar os que ama Desaparecerem por entre as brumas da memória. O ser humano crê. E falha redondamente. Nada nos prepara para um laço que perdura, Um Amor que nunca acaba e uma estrada que já não conduz A parte alguma.
quinta-feira, 23 de abril de 2015
sábado, 21 de fevereiro de 2015
Elegia
Os olhos cegam-te para as cores do mundo, O espectro de cinza confunde-te os sentidos. Não recordas o primeiro momento em que as íris queimaram Os indicadores da cor vermelha-sangue. Apenas reconheces dos dias o som apagado do bafio Em que se tornou o teu quarto e as paredes que te suportam a coluna vertebral. Com os anos mudas a pele uma e outra vez, como uma melodia Que os ouvidos reconhecem de cor. Coleccionas perguntas para as quais sabes as respostas. O coração bate, rítmico, embalado na ausência profunda de cor. Seguro. Seguro. Seguro. Seguro. Seguro. Do mar esqueces o sal. A água fria que te arrepia as certezas. Por vezes, o corpo anseia. Aninhas no teu peito o Vazio que te devora devagarinho As entranhas serenas. Seguro, seguro, seguro, seguro, seguro…
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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015
Filhos de um deus menor
A pele sua a doença nos lençóis amargos Em que deitas o corpo. Nas mãos traças o destino cansado de si mesmo. Enrugam-se os olhos à espera do amanhã seco. O Sol curva-se sobre si mesmo, na curva nada te espera. Da morte restou o negro vazio da ausência. Queres os dias e as noites, o sonho e a realidade, o néctar A morder-te os lábios mudos. A vida piscou-te os olhos tantas vezes, ofuscou-te os sentidos Com promessas inúteis de dias longos e férteis. Pertences a um tempo negado, uma multidão cega de si mesma. Há medo escondido nas vértebras do teu sentir. Um rio poderoso de coisa nenhuma. Sentiste tanto e amaste tanto e foste tanto E nada resta de ti. Abres a boca e engoles o silêncio. Crescem-lhe asas na escuridão da tua mente e na eloquência dos teus actos. Pendem-te dos seios maduros, as chaves que te acorrentam os pulsos frágeis Aos pedaços de sonhos que mamam, famintos, fetos inacabados Filhos de um deus menor. Dos cantos da boca, o silêncio lambe-te as sementes de esperança. Abandonas-te à doença que te corrói a fragilidade do corpo suado.
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segunda-feira, 29 de dezembro de 2014
Tu.
A desumanização ocorre enquanto o silêncio se atravessa Na minha garganta como uma adaga. Cresce um feto de ausência no meu ventre. Um grito que afaga as palavras que não te trazem De volta. Como um rasgar de serenidades. Quem és tu, afinal? Quem o rosto impassível que me observa Enquanto despojos de mim surgem nas águas improváveis. Tu não estás mais aqui. A vida corre como uma gozação do Universo, Uma comédia negra de Deus. E o dia morre na noite, nada mais sobra. Tu não estás mais aqui. Contigo a poesia fria nascida de affair clandestino entre as estrelas e o mundo, Finge seduzir o meu corpo frígido. As letras caem das minhas feridas abertas. Não tenho como purgar o coração esquecido Nas brumas de outrora. E tu. Não. Estás. Mais. Aqui.
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sexta-feira, 12 de setembro de 2014
New dawn
A vida lança os dados, ouço os planetas a mudar a sua rota milenar. Momentos suspensos, em que a sorte colide com o azar e tudo pode acontecer. A criação nasce da terrível coincidência de uma noite que se debruça sobre o dia. Num instante de perfeição, um what if de sentidos e pombas que nos pousam nas mãos. Abrem-se os caminhos e poeira cega-nos os olhos, regemo-nos apenas pelo sentir. O coração implode-nos no peito em cada batida, irrompe pelas barreiras e o sangue rasga-nos. A batida primordial da terra sussurra-me que é o momento dos meus pés me levarem num trilho que não era o meu. - - Encosto as mãos tímidas junto ao corpo tão cheias de nada. Só um passo. Só mais um passo. Só um outro passo. Um pequeno, miserável, trémulo, um passo por mim, pela minha sanidade, um passo em direção ao futuro, um passo, é apenas... é apenas... é apenas. É um passo, é um imenso passo, é um enorme é um destemido, é um grito que envergonha até o mais bravo silêncio. O tempo não espera que ouses saber o que fazer das tuas mãos inquietas. O tempo não se compadece dos teus lábios curvos, num desespero mudo de insegurança. Por vezes, doce criança, a vida tira-te todas as redes de segurança e tudo o que te resta são as asas que um dia soubeste usar, coladas na tua coluna vertebral. Os teus pés começam a marcha, as asas abrem-se devagar e o desfecho reside na força com que fechares os olhos e aprenderes a fazer diferente. Toda a mudança nasce do momento em que o desconforto te oprime o coração contra as costelas e sabes, com a clareza estonteante da angústia que amanhã nada será o mesmo.
Publicada por fairy_morgaine à(s) 02:08 1 comentários
domingo, 31 de agosto de 2014
A alma a esquecer-se de si mesma
Cubro-me de silêncio. Como um casulo que alberga as minhas asas cansadas. Escondidas, junto à coluna vertebral que balança mas não verga. Numa teimosia imperfeita de ser eu. No fim, nada resta senão folhas soltas ao vento. Esquecidas por entre as azafámas do dia mudo. E das palavras, amor, já nada sei. Ofereci-tas todas. Nada mais resta a habitar-me os lábios secos. Prometi-me um mar de certezas. Um futuro certo e um presente enraizado. E o passado seriam apenas dias quentes de sorrisos e ternura. Lembras? Os meus sonhos e as minhas angústias, todas as palavras que te entreguei embrulhadas em lágrimas e em sorrisos. Dei-te sonhos e dias inteiros. Noites rasgadas de incerteza. Dei-te o meu coração despojado de malícia. Dei-te um nome e uma casa. Paredes nuas para cobrires de fotografias e mapas que te trouxessem até mim. Dei-te todas as palavras cheias de mim. Cubro-me, então, de silêncio. Porque as palavras, os dias e as noites, não te chegam. E em ti há sempre uma ânsia de coisa nenhuma. De um lugar que os teus pés não pisaram. De uns lábios cujo sabor a tua língua não saboreou. De uma concretização de momento que teima em não chegar. Cubro-me, finalmente, de silêncio. Porque ainda sinto o teu cheiro e já te adivinho a ausência. E a noite nada mais é que o sepulcro de um amor que não chegou a nascer dos teus olhos para as mãos. Ficou-te suspenso nas íris. Perpetuado de incompreensão e amargura. Cubro-me e parto em silêncio. No espaço árido que é o teu coração os teus olhos são cegos aos meus. E das palavras, amor, que tantas vezes foram pontos de referência, já nada sei. Tudo em mim morre em silêncio. A alma não tem como sobreviver ao esquecimento de si mesma.
Publicada por fairy_morgaine à(s) 02:38 1 comentários
quarta-feira, 6 de agosto de 2014
Magic
O coração cede perante a avalanche de sentimento que brota do mais profundo do meu âmago. Olho-te com os olhos que a vida secou com gestos bruscos. Cobres-me a pele de beijos e os dedos de estrelas. O tempo reverte o desfilar dos planetas. A mente silencia-se e tudo o que sinto é o som do sangue a ferver-me nas veias. Os lábios entreabrem-se para beber de ti, com a sede de anos em que aprendi a calar o coração. Prendes-me as mãos com laços de seda e pétalas de rosa. Prendes-me a mente na tortura mais benigna, na perda mais deliciosa de consciência. Sinto o corpo a arder de fome das carícias do som da tua voz. Invadiste a minha vida, o ciclo interminável de nada. Simplesmente invadiste-me. A loucura de um sonho, de uma noite interminável. Nasceste de um cometa que atravessou o meu céu. Cubro-te os lábios de sussurros, as mãos de beijos, o rosto de um mar de abandono. Esqueço como guardar o coração. Esqueço-me de como me defender. Esqueço-me da manhã. Tudo o que tenho é a noite a sorrir-me por entre estrelas que sabem do nosso destino e não contam.
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