segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Manto de saudade

Moras no meu silêncio. Sereno. Pergunto-me se nessa existência eterna o peso da clareza desapareceu do teu olhar. Regressas em cada música, em cada acorde triste que invade o coração. Levaste contigo as minhas letras. Nada mais sei escrever, agora que não estás aqui. Teço palavras em silêncio, e em silêncio sinto-te chegar. Em memórias esbatidas, em que te ouço chamar-me. O maior medo de quem ama é esquecer a voz de quem partiu. Teço palavras por entre o silêncio, para que possas estar mais um momento aqui. E mesmo quando lágrimas de sal rasgam o coração por entre as palavras e os pontos finais, permito que a sensação de ti invada o poema. Para que os vazios se apaguem perante a clareza com que te recordo. Para recordar que só desaparecerás de mim quando surpirar o último suspiro. O maior desejo de quem ama é a Imortalidade. Não a nossa, essa não. A dos que amamos, para que possam sorrir-nos todas as manhãs e todas as noites, em todos os dias da nossa vida. E a Imortalidade que conhecemos é apenas o Amor. Que nos faz perdurar para sempre no coração dos que amamos. Todas as manhã e todas as noites, em todos os dias da nossa vida.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Eco da eternidade

Sinto as palavras a sussurrarem pedaços de mim, tão distantes, frias, cruas. Dos braços da árvore pendem as fotografias que nunca tirei, pedaços de nada e de irrealidade. Estórias, memórias, sonhos que se perdem, esquecidos por entre as melodias do vento. E finalmente, o silêncio. Cúmplice de tantas noites, tantos poemas, tantos gritos que rasgam as cores opacas dos caminhos por percorrer. Existe verdade na solidão. Existe poder na noite que, imperturbável, te colhe as asas. A espaços, o Sol seduz-me, quente. Inflama o coração de labaredas que lambem os vazios. Destemidas. Líquidas, ferozes. Sentimentos que invadem as veias, forçam as mãos a abrirem-se, honestas. Fecho os olhos para não os ferir de tanta luz. Engasgo-me com a força de reter a voz na garganta. Na árvore, sinto o pulsar das fotografias que se derretem numa paleta de cores e sentires. Um rio de laranjas e vermelhos e liláses que escorrem na pele, até aos dedos. Um rio de acontecimentos e escolhas que pintam a minha pele de futuros inacabados. As cores mascaram a veracidade do meu coração tolhido, gasto, retalhado. O Sol desaparece no horizonte. Fundo-me com a árvore, por entre as sombras. De mim, resta um rio de cores, como lágrimas que alimenta a terra serena. Um grito que ecoa pela eternidade, de reconhecimento do tudo que é ser-se humano.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Quando eu era criança

Quando eu era criança, tive mães que não me carregaram no ventre. Mães que me disseram: "tens o mundo preso nos olhos e nas tuas mãos pousarão aves perdidas nos seus ciclos migratórios". Quando eu era criança, o futuro era um palco de sonhos. Os dias eram longos e as noites obscuras escondiam as horas em que esquecemos de amar. Quando eu era criança, o quarto era cheio de livros e as bonecas que me acenavam na sua solidão contavam histórias de ninar. Quando eu era criança, as minhas lêndeas eram porquês a florir no meu cérebro. Adivinhavam-se já as fraturas que me afligiram a cervical. Eram tantas as questões. Quando eu era criança, era certa e era errada, era eu e muito mais. Era um casulo e já uma borboleta formada.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Reflexos

Na Vida, existem tantos caminhos, tantas escolhas, tantos reflexos de nós. E sempre que escolhemos, a roleta rola e o mundo gira, os trilhos a mudarem, a luzirem até cegares. No fim que é um (re)começo, sei que te sentarás a meu lado cansado da viagem e vais sorrir-me. Dirás que vivemos e fomos mais, fomos grandes. Os joelhos tremeram em noites escuras, os pés arrastaram-se em dias longos. Foi difícil. A Vida é dífícil. Por vezes, desejas apenas que páre. Encolhes o corpo frágil, escondes as asas nas costas cansadas e queres apenas que te esqueçam. Te deixem por momentos respirar fundo. Dizes, que o Sol é demasiado alto e o Céu é demasiado longe, que na tua voz nada mais sobra que um fio de nada. Mas a Vida, não pára. E o casulo onde escondes as linhas que constróis com palavras não pode albergar o teu corpo indefinidamente. As mãos tiveram espasmos, a ciclos, de ti partiram pessoas que amaste. Para outros quadros, outras fotografias. Sorris-me, e dizes que as escolhas te pesaram nos anos que vivemos, os anos em que o cenário mudou tantas vezes. Crescemos. Oh, se crescemos. Tão sonhadores, quanto mudos estão os nossos olhos. Sou o teu espelho. As tuas raízes roem-me os pés, enquanto os teus braços procuram o calor da fonte. Iremos partir, para outra Viagem, mas por enquanto o teu semblante é o meu semblante, e os teus olhos, os meus. Os teus lábios sorriem o meu sorriso, e nas minhas mãos nascem os teus poemas. Um cordão de todas as cores, liga o teu umbigo ao meu e os teus dedos confundem-se com os meus. Lembras? Lembras, quando nos vimos pela primeira vez, o tempo não era ainda tempo? Murmuras o meu nome, e o meu nome é o teu. Esqueço-me de mim e de todas as palavras. O Mundo gira. Difícil não é perdermo-nos no abismo, difícil é encontrarmo-nos e não sabermos que somos nós.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Donzela

A poesia seduz-me como uma mulher embriagada, o hálito doce a roçar a minha pele sensível. Sussurra-me mistérios e palavras que temo, como amuletos que guardam o teu coração. Vejo-a dançar, os cabelos longos a lamberem-lhe a cintura. Permaneço, muda. Trago uma tempestade no peito, que encerro com dedos leves. A poesia rodopia e ri, ri e as suas gargalhadas são manhãs de Primavera. Raios de calor com que agrilhoa a minha voz que morre nas paredes. O quarto rodopia, sinto uma náusea atirar-me num êxtase poético. A poesia segura-me o rosto nas mãos ossudas que se transformam em mãos de donzela. Abraço-a, rendida num quebranto que me rendilha as vontades. Rezo em silêncio para que este momento não termine, infinita rendição que torna as cores vibrantes e faz asas nascerem nos espaços entre as costelas. Dos olhos nascem pombas como lágrimas, nascem arco-íris como fotografias. Sei dela, que tem nome. Entreabro os lábios para a chamar, para lhe dizer de mim todos os segredos, todos os sonhos, todas as incógnitas, todas as esquinas, todos as portas. Entreabro os lábios e o seu perfume acre queima-me a língua. Num suspiro murmuro o teu nome.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

(re)Encontro

A tua partida reveste-se de um absurdo tão profundo, Que as cores invertem-se até que o ar reencontra o caminho Para os alvéolos. Onde a tua essência ressoa, as minhas mãos frágeis não te podem alcançar. Poderia escrever-te todas as cartas, todas as palavras, todos os silêncios. Nunca conseguiria descrever o momento da realização da tua ausência E a forma como este se repete num ritual diário, o coração teimoso a crer que Estás ainda à distância de um passo. É ainda a força do teu Amor que me mantém inteira, honesta, digna. Para que quando me sonhes, comA tua partida reveste-se de um absurdo tão profundo, Que as cores invertem-se até que o ar reencontra o caminho Para os alvéolos. Onde a tua essência ressoa, as minhas mãos frágeis não te podem alcançar. Poderia escrever-te todas as cartas, todas as palavras, todos os silêncios. Nunca conseguiria descrever o momento da realização da tua ausência E a forma como este se repete num ritual diário, o coração teimoso a crer que Estás ainda à distância de um passo. É ainda a força do teu Amor que me mantém inteira, honesta, digna. Para que quando me sonhes, como te sonho, nessa outra Dimensão que os meus olhos apenas Fantasiam, me saibas tua neta. Pedaço de ti, continuidade, linha recta do teu saber. (Re)encontro-te amanhã. Neste tempo sem tempo De realização do quão absurda é a existência pautada de ausências De pedaços da carne.o te sonho, nessa outra Dimensão que os meus olhos apenas Fantasiam, me saibas tua neta. Pedaço de ti, continuidade, linha recta do teu saber. (Re)encontro-te amanhã. Neste tempo sem tempo De realização do quão absurda é a existência pautada de ausências De pedaços da carne.

domingo, 26 de abril de 2015

Eco mudo

III Num eco mudo, o teu nome espelha a aparição da Dama Branca, O abraço seco com que largaste o último suspiro. Soube que esse era o primeiro dia do resto da minha vida. Em que as cores invertidas trocaram a tonalidade pelo opaco Das raízes que se esvanecem e jazem a meus pés. Fechou-se a porta da casa e o pó adulterou os teus passos silenciosos Nas manhãs em que o sonho embalava as nossas pálpebras. Eras a nossa certeza, o conforto sereno de te sabermos na retaguarda Dos nossos voos tímidos. Restam de ti as fotografias e as memórias que guardamos junto ao coração, Rentes à pele. Restam de ti os nossos sorrisos, os braços da árvore que eras tu.